Aprendendo novos idiomas

Devido ao impacto que a surdez ocasiona na comunicação oral, um dos maiores desafios que as pessoas que convivem com essa realidade podem enfrentar é no aprendizado de uma segunda língua. Para aqueles que já nascem com uma deficiência auditiva, quanto maior o grau da perda auditiva e mais tardio for o início do processo de estimulação e reabilitação, também a aquisição da língua materna oral pode apresentar dificuldades.

Duas questões principais costumam entrar em cena quando uma pessoa com deficiência auditiva é exposta ao contato com um novo idioma: o acesso às frequências dos sons da fala e as habilidades cerebrais do processamento auditivo. A interação entre elas vai ajudar a determinar se a pessoa terá dificuldades ou não na aquisição do idioma, porém, como explica o otorrinolaringologista Dr. Luciano Moreira, médico do Hospital São Vicente de Paulo/RJ e chefe da Equipe Sonora, o peso que cada uma destas duas questões terá no processo como um todo varia de indivíduo para indivíduo.

“Pacientes que têm um resultado auditivo muito bom com seus AASI (Aparelhos de Amplificação Sonora Individual) ou Implantes Cocleares têm boa capacidade de ouvir os fonemas das diferentes línguas, o que propicia o correto aprendizado da pronúncia. Já para os pacientes em que a reabilitação auditiva não foi capaz de conferir-lhes acesso a todas as frequências dos sons da fala, vão apresentar grande dificuldade nesse aprendizado. Por outro lado, nós sabemos que a privação auditiva causada pela surdez pode alterar a capacidade do cérebro de processar a linguagem. Trata-se do ‘processamento auditivo central’. Nesses casos, essa alteração do processamento pode afetar tanto o desempenho na primeira língua, quanto no aprendizado de uma segunda ou terceira. Isso também pode acontecer em pacientes sem perda auditiva, e todos esses casos podem se beneficiar de terapias fonoaudiológicas específicas”, conta Dr. Luciano.

E quanto às crianças surdas, sobretudo as com perda auditiva pré-lingual (adquirida antes mesmo do indivíduo ter contato com a língua materna)? Hoje, é cada vez mais tendência que os pais e profissionais estimulem o aprendizado de mais de um idioma desde cedo para esses pequenos. “Existe um volume crescente de dados indicando que não há nenhuma contraindicação ao aprendizado de dois ou mais idiomas por crianças surdas pré-linguais devidamente reabilitadas. Tenho uma paciente implantada aos onze meses que hoje é fluente em dois idiomas. A teoria da ‘confusão linguística’ parece ser um mito, não havendo evidência científica nesse sentido. O importante é avaliar cada caso de forma individualizada, pois podem existir outras questões escolares, familiares e/ou cognitivas”, enfatiza Dr. Luciano Moreira.

O profissional também defende, particularmente, que a criança com deficiência auditiva seja estimulada para que aprenda mais de um idioma. “Em países como o Brasil, o aprendizado de uma segunda língua é um fator fundamental para a inserção no mercado de trabalho. Considerando as dificuldades que os indivíduos com surdez já enfrentam para estudar e trabalhar, seria um erro estimular a perda dessa valiosa ferramenta”, diz.

A fonoaudióloga Sandra Giorgi Sant'Anna, mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP, especifica o momento ideal para a introdução de um segundo idioma na vida das crianças com surdez severa ou profunda. “Quando consideramos o aprendizado de uma segunda língua, seja ela visual ou oral, quanto antes ocorrer o contato com a língua e seu aprendizado, maior a chance de fluência nesta língua. Quando falamos de uma criança usuária de Implante Coclear, porém, mesmo que a família seja bilíngue oral, o ideal é priorizar uma língua até que a criança esteja desenvolvendo a linguagem oral e as habilidades auditivas de forma semelhante aos pares ouvintes, neste momento a segunda língua pode ser introduzida. Vale lembrar que estou considerando aqui crianças implantadas precocemente, sem outros comprometimentos. Isto porque, nos casos de Implante Coclear tardio, a variabilidade de respostas e as necessidades específicas podem determinar condutas diferenciadas para cada caso”.

Sandra também explica sobre os casos de bilinguismo envolvendo a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). “Ter a LIBRAS como segunda língua também é possível, mas não existem escolas de LIBRAS com a mesma característica que escolas de línguas estrangeiras. No caso do Implante Coclear, eu aguardaria até a estabilização do mapeamento e início da aquisição da língua oral para introduzir a LIBRAS como segundo idioma. E é necessário manter a estimulação auditiva/oral além do aprendizado da LIBRAS, que não ocorre dentro do processo terapêutico”. Lembrando que a LIBRAS também pode ser utilizada como primeiro idioma, se esta for uma escolha da família da criança ou do indivíduo adulto, mas o foco desta reportagem são os processos de aquisição de idiomas orais, porque o público leitor da ADAP é, em sua quase totalidade, oralizado e usuário de Implante Coclear.

Como aprender um novo idioma? 

Dedicação aos estudos, contato direto com a língua ou com outros indivíduos fluentes nela e o uso de recursos de acessibilidade de acordo com as necessidades de cada pessoa com deficiência auditiva são os fatores principais que podem ajudar no aprendizado de outro idioma. Dr. Luciano Moreira explica que o processo como um todo não é muito diferente daqueles a que são submetidos os demais indivíduos.

“O aprendizado de um segundo idioma é um fenômeno linguístico complexo, independentemente da perda auditiva. Os princípios aplicados no ensino de idiomas às pessoas com perda auditiva são os mesmos usados para os alunos ouvintes. Basicamente, quanto mais tempo dedicado ao estudo, quanto mais imerso no universo da segunda língua, visual e auditivamente falando, e quanto mais prazeroso for esse aprendizado, mais rápido se aprende. Mais uma vez, entretanto, a qualidade da reabilitação auditiva é fundamental. O uso de dispositivos FM ou outras tecnologias mais modernas para transmissão da voz do professor para o aluno também pode ajudar bastante”, destaca o otorrinolaringologista.

A fonoaudióloga Sandra Giorgi Sant'Anna conta que a sua área profissional também pode ajudar o paciente com deficiência auditiva nesta tarefa. “No que se refere à aquisição de uma segunda língua oral, a fonoaudióloga pode auxiliar em treinos de discriminação e pronúncia específicos, caso seja necessário”.

Pensando em trazer experiências e relatos de pessoas com deficiência auditiva e usuárias de AASI ou Implante Coclear que já passaram pela fase de aprendizado de um outro idioma além do português, a ADAP entrevistou seis mulheres da comunidade surda oralizada que conhecem as mais variadas línguas (inglês, espanhol, francês, alemão e LIBRAS). As histórias, assim como as dicas pessoais dadas por elas, podem ser conferidas abaixo.

Relatos de aprendizados de um novo idioma por pessoas surdas oralizadas

“Eu sempre me interessei em aprender inglês. Minha mãe é professora de inglês, mas santo de casa não faz milagres, rs. Claro que me ajudou muito, isso sim. Aprendi basicamente na escola, fiz aulas particulares e também de Cultura Inglesa. As aulas particulares eram muito melhores, porque o atendimento é individualizado, e a professora pode dar ênfase à pronúncia. Ela me explicava o som da palavra, assim ficava mais fácil para entender. Nas aulas de Cultura, eu tive muito problema com aulas práticas em laboratório e em grupo, por isso acabei desistindo. Acessibilidade zero na época. Mas lá aprendi muita gramática. Isso tudo aconteceu na adolescência, antes de entrar na universidade.

Na época da universidade, eu continuei tendo contato com o idioma, fazendo traduções de artigos/periódicos odontológicos, mas não tive oportunidade de praticar a fala. Quando, em 2013, me mudei para os EUA, fiz um módulo de ESL (English Second Language) ainda usando AASI, dependia muito da Leitura Orofacial (LOF), e novamente a professora me explicava o som da palavra, como na adolescência.

Depois do IC, feito em 2014, ficou mais fácil, porque passei a usar IC+AASI e eu entendia cada vez melhor, apesar de ainda não estar totalmente reabilitada com o IC. Aprender um novo idioma é um excelente treino auditivo. Atualmente, sou bi-implantada e já pego muita coisa sem LOF, entendo áudios, e entendo muito melhor a pronúncia das palavras. A voz melhorou muito depôs do IC, passei a entender cada fonema.

Acho que a maior dificuldade que eu tenho é falar com fluência, mas não é uma dificuldade exclusiva do surdo, ouvintes também passam por isso. Precisamos estar sempre expostos à língua, no dia a dia. Quem quiser fazer intercâmbio, sugiro que faça. As escolas são obrigadas a prover acessibilidade hoje. Eu também faço treinamentos auditivos através de aplicativos em inglês próprios para isso: Angel Sound, OticonMedical, ABLEClix, Cochlear Americas Phone Rehab, Musical Atmospheres, Duolingo, Rosetta Stone”.

Renata Orsi, brasileira usuária de Implante Coclear bilateral que atualmente reside nos Estados Unidos.

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“Eu perdi a audição aos 10 anos. Perda profunda bilateral, o que significava praticamente nenhum aproveitamento com AASI. Resultado: minha comunicação entre os 10 e os 35 anos (quando finalmente tive discriminação auditiva através do Implante Coclear) se deu através da leitura labial apenas.

Não que fosse ruim, eu sempre tive uma excelente compreensão lendo lábios. Mas, essa compreensão se dava em português apenas. E eu sempre tive vontade de aprender outros idiomas. E parecia algo inacessível para alguém com a minha base de comunicação.

Um dia, viajei para a França e me apaixonei pela língua francesa. Voltei de lá com a ideia fixa de que iria aprender francês, porque percebi o quão labial é esse idioma. Os franceses articulam muito para falar e isso me animou. Procurei uma professora particular que tinha perto da minha casa. Expliquei a situação e ela comprou a ideia de ensinar um surdo oralizado a aprender a falar e entender outro idioma. Isso porque ensinar gramática é fácil, mas pronuncia e compreensão é um desafio até para quem ouve.

Ela me ensinou o som de cada vogal e consoante, de cada ditongo, de cada sílaba. Pronunciar e saber como era a pronúncia para ler nos lábios. Ensinou-me a ler o código internacional de pronúncia, para saber ler a pronúncia nos dicionários e poder reconhecer as palavras por conta própria. Foram três anos de aulas particulares, com muito interesse e dedicação da minha parte. Hoje, com o IC, eu tive oportunidade de estudar outros idiomas também. Mas confesso que tenho um certo orgulho de falar que aprendi francês sem ouvir. Dá aquela sensação honrosa de conquista e a certeza que com dedicação e vontade de aprender, tudo é possível!

O engraçado foi que tive que aprender francês duas vezes. Eu era fera em entender via leitura labial. Mas quando fiz o IC e a leitura labial foi se tornando mais fraca, minha compreensão do francês caiu bastante. Eu ainda conseguia ler, mas entender auditivamente ou por leitura labial era outra história. O jeito foi ouvir um monte de áudio fazendo leitura simultânea. Ligar cada som a cada fonema, tal qual tinha feito para aprender a ler lábios. Não foi fácil, porque aí a motivação já não era a mesma. Era uma briga constante comigo mesma "poxa, mas eu já aprendi isso". Aí tentei a tática de ouvir enquanto dormia e ajudou bastante, rs.

Hoje, tenho uma compreensão boa do francês e falo bem. Consigo me virar bem numa viagem sozinha a França, por exemplo. Mas, confesso que pela falta de prática, não está tão bom quanto eu gostaria. Quem sabe se eu voltasse a estudar, como seria?”.

Lak Lobato, brasileira usuária de Implante Coclear bilateral, autora do blog e do livro “Desculpe, Não Ouvi”.

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“Aprendi inglês na escola e fiz dois semestres num curso quando era adolescente. Parei porque me estressava com as provas orais, perrengue básico de quem não escuta! Aprendi a ler lábios em inglês assistindo seriados do canal Sony nos anos 1990-2000. Sempre fui ótima em leitura e escrita, mas ouvir e falar, só melhorei depois do IC. Hoje consigo ouvir uma palestra em inglês usando cabo de áudio e entender uns 75% sem leitura labial.

Já a fala, o meu problema é que meu cérebro não gravou a pronúncia correta de muitas palavras, e volta e meia me pego na dúvida, tipo: é ‘lives’ ou ‘laives’ a pronúncia certa de LIVES? Para melhorar de verdade, queria ter tempo livre para passar algumas horas por dia ouvindo vídeos e palestras em inglês e ‘gravar’ essas informações para sempre! Mas acho que só um intercâmbio, uma experiência de total imersão, me faria dar um UP total e completo na pronúncia. Um dos meus maiores prazeres é ouvir e entender tudo em inglês, graças aos IC's! No meu blog, tem alguns posts onde dou dicas de inglês para as pessoas com deficiência auditiva”.

Paula Pfeifer Moreira, brasileira usuária de Implante Coclear bilateral, autora do blog e de dois livros “Crônicas da Surdez”.

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“Desde pequena eu quis aprender novos idiomas, mas é claro que, em primeiro lugar eu tinha que me fortalecer com a língua portuguesa. Mais tarde, na adolescência, aprendi a LIBRAS e o inglês, e nos últimos dois anos e meio resolvi estudar alemão. O início deste último curso foi muito difícil e assustador, pois sou a única surda em sala de aula contendo aproximadamente de 12 a 15 alunos. Não há nenhum tipo de acessibilidade para pessoas com surdez, infelizmente, pois as aulas são planejadas de acordo com as próprias regras da instituição, ensinando o aluno a pensar em alemão, em um ritmo bem acelerado.

O meu sentimento em sala de aula entrou no túnel do tempo, como se eu fosse novamente aquela criança que estava aprendendo a ler, escrever e falar. Com o meu extremo esforço, estou conseguindo aos poucos a fazer a leitura labial no novo idioma, e devo sempre estudar muito nos livros didáticos! Não é fácil, mas vocês sabiam que a língua portuguesa é também um dos idiomas mais difíceis do mundo, inclusive mais do que o alemão? Então, devemos ter fé de que conseguiremos esse idioma também!

Vou dar algumas dicas para quem tem vontade de aprender outros idiomas. Para mim, o melhor jeito de fazer isso é ter canetinhas coloridas e muitas folhas brancas, nelas você pode agrupar os materiais por: GRAMÁTICA, VOCABULÁRIO, FRASES OU TEXTOS FEITOS POR VOCÊ. Faça isso para cada capítulo do livro que você estiver estudando, e coloque na parede de seu quarto ou até mesmo em um armário! O mais importante é ler e escrever sempre, e você evoluirá bastante! Outra ideia é ter um diário, onde todos os dias você se compromete em relatar suas rotinas, e aos poucos seu vocabulário crescerá. Isto eu também fazia quando aprendi a língua portuguesa, e as redações eram o que me ocupavam mais tempo.

Já a LIBRAS foi muito mais fácil de aprender, pois ela é totalmente visual. Ao contrário dos ouvintes, que não estão habituados com o uso da visão para a comunicação, acredito que para nós seja mais fácil aprender a LIBRAS. Por isso que muitos que escutam normalmente sentem dificuldades em aprendê-la, como se fosse o alemão para nós, surdos, rs”.

Patrícia Rodrigues Witt, brasileira usuária de AASI bilateral, autora do blog e do livro “Surdez: Silêncio em Voo de Borboleta”.

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“Minha família materna falava espanhol e minha mãe misturava português e espanhol, então desde criança, e ainda ouvinte, eu tinha o espanhol em casa, nos filmes e nas músicas. Foi um aprendizado natural que eu, mais tarde, só aperfeiçoei na parte gramatical. Também o francês comecei a aprender com 12 anos, antes de ser surda. Quando comecei a usar AASI, não tive dificuldade com o francês escrito, mas o francês e o inglês falados eu tenho dificuldades hoje. E o espanhol, por ser minha língua materna junto com o português, não tenho problemas”.

Sônia Ramires, brasileira usuária de AASI bilateral, autora do blog “SULP: Surdos Usuários da Língua Portuguesa”.

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“Comecei curso de inglês com um professor particular aos 12 anos. A perda auditiva iniciou-se aos 14, mas o contato mesmo com o idioma e a fluência vieram só mais tarde, quando me mudei para os EUA. Na época, eu já ouvia pouco e precisava aprender a ler lábios, o que era horrível, pois o inglês não é um idioma muito articulado. Muitas palavras dependem da posição da língua e não dos lábios, e só após aprender a ler lábios foi que consegui aprender a pronúncia das palavras. Eu já tinha noção de como eram os sons porque já estava estudando desde os 12 anos, mas os professores e amigos diziam a palavra, eu lia os lábios e, ao compreender, ia repetindo a pronúncia até acertar. Algumas palavras foram especialmente difíceis, como ‘enterpreneur’. É simplesmente terrível entendê-la por leitura labial, e até hoje eu a pronuncio com dificuldade.

Aprendi relativamente rápido, por volta de seis meses já estava falando e lendo lábios muito bem. Depois do Implante Coclear, veio a tarefa de aprender a ouvir o som pronunciado, então eu mesma precisava repetir as palavras em voz alta para saber como era o som e depois ouvir da boca de outras pessoas.

Eu não tive muita dificuldade, porque tive professores e amigos maravilhosos que tinham toda a paciência e boa vontade do mundo para me ajudar. Enquanto o inglês eu já tinha noção, de espanhol eu não sabia nada, então decidi fazer espanhol na escola (escola regular, ensino médio nos EUA), antes de implantar também. Foi imensamente mais fácil aprender. É um idioma muito articulado, assim como o português e, em um ano, eu estava falando muitíssimo bem. Minha professora era argentina e um amor de pessoa, me ajudou demais e também com muita paciência. Depois do implante, também precisei aprender a ouvir o espanhol e confesso que eu o achei um idioma estranho, não me agrada os ouvidos como o inglês, mas não tive grandes dificuldades no processo”.

Diéfani Favareto Piovezan, brasileira usuária de Implante Coclear bilateral, viveu por alguns anos nos Estados Unidos e é autora do blog “Igualmente Diferentes”.

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* Créditos das fotografias: Pixabay (primeira e segunda imagens) e arquivo pessoal das entrevistadas (demais imagens).

Matéria por Ana Raquel Périco Mangili.

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