Este sou eu. Adunco é o meu nariz. Que fazer? Descendentes de libaneses são assim. Então eu sou assim. Mas deixemos meu nariz de lado. Fixemos em meus ouvidos.
Quando nasci, em março de 1962 eles funcionavam perfeitamente. Mas deixaram de processar os sons em Agosto de 1973, quando uma epidemia de meningite assolou o Brasil e eu fui um dos primeiros a contrair. Desde entao passei a usar um aparelho auditivo convencional.
Mas vejamos agora esta anteninha circular grudada na minha cabeça. E o aparelhinho pendurado atrás da minha orelha. É um microfone. Na minha mão, o processador de fala. Dois fios ligam estes três dispositivos Isto é a parte externa do "Implante Coclear", uma maravilha tecnológica que vem revolucionando a vida daqueles que nasceram ou se tornaram surdos ao longo da vida.
A seguir, veremos fotos e textos, mostrando como foi minha aventura em busca do Implante Coclear, e minha inserção mais proveitosa no mundo dos sons.
O relato será distribuido em duas partes: a primeira, mais técnica, mostrando o processo da cirurgia e ativação do aparelho. A segunda, mais pessoal, mostrando as pessoas que participaram deste processo.
13 de Maio de 1999. Comemoramos a abolição dos escravos no Brasil. E lá estava eu, deitado na cama do Community Hospital, em Boca Raton, Florida, Estados Unidos. Tranquilo, sereno e confiante. Preparando-me para a cirurgia para inserção da parte do Implante Coclear.
Na Segunda parte deste relato, veremos como vim parar ali.
O que importava naquele momento, era que eu estava absolutamente tranquilo quanto aos resultados da cirurgia.
Havia lido bastante a respeito e consultado pessoas americanas que haviam feito a mesma cirurgia. E confiava na equipe que iria realizar a cirurgia. E confiava em Deus. Então, o que haveria de temer?
Momentos depois entrei na sala de cirurgia e aspirei o anestésico geral. Pensei no meu filho Lucas, entao com 5 anos, e adormeci profundamente.
Logicamente, nada vi do que aconteceu nas 4 horas seguintes. Para uma descrição sucinta deste processo, clique na foto acima
Acordei com um frio tremendo. Perguntei aos médicos: “All right?” e recebi deles o sinal do “OK” americano.
Passei apenas uma noite no hospital. Dores, somente de vontade de urinar. Mas consegui caminhar até o banheiro e me aliviar. O sono foi tranquilo.
Dia seguinte, um belo Sábado de verão floridiano, já estava em casa.
A foto mostra a pequena área de cabelo que foi raspada e a posição aproximada do chip eletrônico que foi inserido debaixo da pele.
Além do chip eletrônico, um fio de platina de aproximadamente 2,5 cm foi “enrolado” dentro da minha cóclea. Ele estava ligado ao chip por um conjunto de fios, que passavam pelo meu crânio através de um orifício feito durante a cirurgia.
Este conjunto era a parte interna do implante. O modelo do implante que eu recebi foi o Nucleus 24, da Cochlear.
O corte feito no lado direito da minha cabeça foi bem grande. Era uma técnica cirúrgica antiga. Atualmente, este grande corte é desnecessário. Faz-se um corte bem menor, que cicatriza mais rápido.
Não recebi pontos, mas cola cirúrgica, e assim não precisei retornar ao hospital para retirar os pontos. Somente para uma revisão, uma semana depois.
O olhar para o futuro era confiante
No dia seguinte à cirurgia, já retiramos as bandagens que recobriam o corte e pude fazer a limpeza da orelha e adjacências. No terceiro dia, alguma dor se manifestou, mas tomei uma dose extra do analgésico. Tudo na mais perfeita normalidade e tranquilidade.
Como um índio moicano. Foi assim que fiquei, com aquela parte direita dos cabelos raspados. Ficou gozado, mas não tirou meu bom humor. A cirurgia foi feita no meu ouvido direito, justamente o que eu ouvia com ajuda do antigo aparelho.
Assim, estava eu agora completamente surdo, me comunicando com grande turma floridiana por leitura labial.
Aqui eu me preparava para ter minha orelha limpa pela primeira vez depois da cirurgia.
De novo, mais detalhes do índio moicano. Nada de curativos. Eu circulava assim mesmo (de camisa, claro) pelos circuitos floridianos, enquanto esperava a cirurgia cicatrizar para poder ativar o aparelho.
Americanos são legais neste quesito. Não notam nada de estranho ou anormal nas pessoas. Com a cabeça assim eu ia a festas e comemorações de final de ano letivo no verão da Florida.
Também fazia caminhadas em volta dos lagos, passeava na praia, fazia pequenas exercícios.
A cirurgia em nada incomodava.
Eram 30 dias para passar pacientemente. A cirurgia foi numa Sexta-feira e no Domingo, fizemos um pique-nique no “quintal” da casa onde eu estava hospedado.
Prá não ficar ansioso, estes 30 dias deveriam ser preenchidos com atividades relaxantes, prazerosas, positivas, confiantes. Além das atividades ao redor da casa, eu saía muito para conhecer os vários lugares da Florida e também frequentava as salas ce chat específicos da net, conhecendo mais implantados americanos e confraternizando com eles. Informação, no processo do Implante Coclear, é importantíssima!!!
O “quintal” da casa onde eu estava. Com uma paisagem desta sendo vista pela janela, não dava mesmo pra ficar de baixo astral, mesmo estando surdo completo. Aqui eu caminhava, fazia tai-chi, meditava, escrevia, fotografava e filmava. E a patinha que nada tranquilamente ali virou minha amiguinha. Acompanhei a chocagem dos ovinhos dela e o nascimento dos filhotes. Só não deu pra fotografá-los.
Tudo era muito bonito. Só não havia sons. E eu não sentia falta deles naquele momento. Estava confiante que em breve iria recuperá-los, com melhor qualidade que antes.
Bom humor e alto astral eram itens importantíssimos para a rápida cicatrização da cirurgia. Aqui, numa festa de aniversário à beira do mar, eu brincava no vento forte, prenúncio da época dos tufões na Florida. Este foi fraquinho, mas deu pra “voar” nele.
Ainda o bom humor. E, confesso, a desnecessária extravagância. Com apenas duas semanas de cirugia, eu não deveria fazer atividades físicas tão fortes, mas a euforia era tão grande por estar ali, que eu não me continha. Ainda na tal festinha, rodeado de crianças, eu me tornava uma delas. Adrenalina no sangue, ajudava a criar o clima de infantilidade.
E assim, me recuperei rapidamente e sem problemas.
11 de junho de 1999. Era o tão esperado “hook-up day”. No Brasil, meu irmão e minha irmã comemoravam o aniversário deles. Na Florida, eu me preparava para a ativação.
Estava ainda super tranquilo e confiante no processo. Antes de sairmos para a clínica, havíamos planejado que de lá, já de aparelho funcionando, iríamos a um clube brasileiro, ouvir samba, pra compensar os 30 dias de silêncio absoluto.
Mesmo tendo lido muito e me preparado bastante, eu ainda não tinha exata noção do que estava por vir. Mas o pensamento era hiper-positivo. Isto ajuda, claro. E muito!!
Se podemos “prenunciar” o que vai acontecer, porque não prenunciar o MELHOR??

O exato momento do início do Hook-up, o processo de ativação. A antena externa foi grudada ao chip interno por meio do ímã que ela tem. O microfone foi “pendurado” atrás da orelha e o processador de fala foi ligado ao microcomputador da equipe de audiologistas.
Naquele fio de platina dentro minha cóclea existem 24 eletrodos, ou canais. Dois deles foram desativados. Um deles, o 8, “espetava” minha amígdala sempre que era ativado.
Os 24 canais foram então exaustivamente programados, estabelecendo-se o nível mínimo e máximo de cada um deles, variando desde os sons mais graves até os mais agudos.
A ativação inicial consiste na “construção” dos 4 programas que alimentam o Nucleus 24. É um processo lento, por vezes enfadonho e massante. Na primeira vez que o sistema é ligado, não se ouve propriamente sons, mas uma séria de ruídos, tipo “puu...puuu...puuu... piii....piiii”, variando de graves a agudos. Os limites superiores dos eletrodos, em decibéis, são configurados de uma forma que não sejam tão agressivos para a cóclea.
O cérebro fica meio “confuso”, pois aqueles ruídos são totalmente novos e ele não “sabe” como processá-los. Aquilo pode ser tudo, menos sons. Por isto parece que a tendência do cérebro é ignorar aqueles ruídos. É um processo estranho, e, pelo menos para mim, desgastante.
Claro que o belo sorriso da audiologista americana foi importantíssimo para amenizar o cansaço.
Cansaço. Era o que eu sentia depois de umas 3 ou 4 horas de trabalho intenso. Era como se eu houvesse passado a semana inteira trabalhando em algo mentalmente pesado, tipo, cálculos complexos de engenharia ou programação de computadores.
Saí da clínica ouvindo, é verdade, mas aqueles sons confusos que o cérebro ainda teimava em não reconhecer. E muitos ruídos que chegavam a serem agressivos. Vozes, eram horríveis, tipo “voz do pato Donald”, aquela coisa esganiçada.
É um momento delicado. Se eu não estivesse psicologicamente preparado, teria ficado decepcionado com o IC e desejado meu velho aparelho de volta. Mas àquela altura, era tarde demais. Prá frente é que se anda e lá fui eu.
Quatro dias depois meu cérebro conseguir processar a primeira música. Era Ricky Martin cantando Living La Vida Loca. Vibrei de alegria. Foi emocionante.
Várias vezes voltei à clínica durante os 30 dias seguintes. Vários programas foram feitos e trocados. Várias emoções sonoras foram vividas. Algumas delas:
- o som do pássaro: nos intervalos entre as programações, eu passeava com a turma pelos vários parques da Florida. Um dia, debaixo de uma árvore, ouvi um pássaro cantando. Recostei na árvore e fiquei ouvindo. Lágrimas desceram dos meus olhos. Era o som de um pássaro. Meu Deus! Havia 26 anos que eu não ouvia aquele som.
- Bolero, de Ravel. Era uma das músicas que eu gostava de ouvir, mesmo com o velho aparelho, ouvindo mais os sons graves dela. Após o IC, baixamos a música da internet e ... bingo! Que linda música! Era mais linda do que eu imaginava. Os primeiros acordes, eu não ouvia antes, porquê eram agudos e sutis. Agora estavam eles ali, completos, ressoando na minha cóclea. Novas lágrimas rolaram.
- O som do relógio. Meu relógio de pulso fazia um bip-bip a cada hora redonda. Eu não sabia. A primeira vez que eu ouvi, estava dentro do carro. Fiquei procurando de onde tinha vindo aquele som. “É seu relógio”, disse uma amiga. Fantástico! Então é assim que é o som de um relógio eletônico? Em 1973 eles não existiam.
- O telefone. O triiiiimmm do telefone foi incorcoporado ao meu universo sonoro logo nos primeiros dias. Mas ouvir voz ao fone, era algo que eu nem esperava fazer em breve. Mas um dia, uns 20 dias depois da ativação, o fone tocou. Estava eu sozinho em casa e resolvi atender. Do outro lado, pude ouvir a voz nítida da minha amiga: “Alô Roner. Sou eu fazendo um teste com seu IC”. Entendi perfeitamente. Choramos ambos ao fone. E gargalhamos depois. Foram as primeiras gargalhadas “by phone” que ouvi com o IC. E o som que mais gosto de ouvir hoje. E também de provocar.
Muito treinamento sonoro foi importante para, em 30 dias, conseguir o progresso que outros conseguiam em 1 ano, segundo as audiologistas. Muito treinamento sonoro viria depois, já no Brasil. Música diretamente plugada no processador muito ajudou. Discernimento dos sons e reprogramação constante do aparelho, já no CPA de Bauru, me ajudaram e ter uma audição quase perfeita. Que ainda hoje evolui.
Segunda ParteNada se consegue sozinho. Toda vitória é o resultado de um trabalho de equipe.
A seguir, faremos um tributo às pessoas que tornaram este sonho possível. Ao carinho, dedicação, empenho, trabalho, amizade, conhecimento, competência e tudo o mais, cuja soma foi uma formidável vitória.

Consola - Foi a principal personagem de toda a história. Prima e amiga dos tempos da adolescência, morava na Florida em 1999. Nos reencontramos pela internet e, em consequência dos papos, começamos a pesquisar sobre “um aparelho auditivo mais potente”. Chegamos no Implante Coclear e no Hospital de Boca Raton. Por obra do “Grande Roteirista”, o presidente da fundação do hospital, era o Mr. Altman, para quem ela trabalhava. Bingo! Como ele era muito grato a ela, solicitou ao hospital a minha inclusão no plano de cirurgias gratuitas.
Consola conseguiu até mesmo que o presidente do hospital pagasse minha passagem. E foi quem me hospedou em casa dela me suportando por 70 dias, junto ao marido Flávio e filhas.
Companheira de emoções, chorava a cada novo som que eu conseguia conquistar.
The Lucio’s Family – Flávio, Consola, Ana Paula e Flávia. A família Lúcio, que abriu as portas da casa deles para mim. E me abriu os ouvidos para os sons do mundo. Flávio sempre paciente, suportando o “hóspede do barulho”; foi também nosso motorista para a viagem pra Disney. Ana Paula, a companheira dos esportes pós-implante; Flavinha, me emprestou o quarto dela, com computador e tudo. E Consola, coordenando todo mundo, sempre com muita dedicação, revezando-se entre trabalho, escola e a minha cirurgia, reabilitação e ativação.
Nesta foto, jantamos em uma churrascaria diferente, com cascas de amendoins espalhadas pelo chão. Era o níver da Aninha.

Mr. Altman – Muito carinhoso, por vezes até demais chegando a beijar a gente. Adorava a familia Lúcio e era muito grato à Consola, que tinha cuidado da esposa dele até os últimos momentos. Era presidente da fundação do Hospital de Boca Raton.
Quando o hospital solicitou a liberação de um fundo para realizar cirurgias gratuitas para a comunidade, ele liberou com uma condição: que fizessem a cirurgia em “um amigo meu do Brasil”. Era eu!!! No dia seguinte ele já me esperava na Florida. Calma Mister, eu tenho ainda que conseguir passaporte e visto. E não tenho grana pra passagem. Numa festa ele conversou com o presidente do hospital: “Mandem o rapaz. Pagaremos a passagem dele”, foi o resultado daquela conversa.

Dr. Mark Widik – O prestimoso médico otorrino do Hospital de Boca Raton. Realizou a minha cirurgia com desprendimento, dedicação e muita competência.
Durante minha recuperação, ligava de vez em quando para saber do meu estado. Emocionou-se ao ler a carta de agradecimento que enviei a ele, com foto da Thiara.

Tricia McMurrain, Terry Havendrakis e Sarah Gibson – As Panteras, digo, as audiologistas que fizeram minha ativação e primeiros programas. Sempre de bom humor, rindo muito com as minhas brincadeiras e se emocionando com minhas histórias. Profissionalismo, carinho, dedicação e presteza me mostraram que as americanas não são tão frias assim.

Danette e Barbara Koss – Implantadas residentes na Florida, me deram apoio psicológico antes e depois da cirurgia.
Com Barbara eu me correspondia meses antes de viajar e aprendi tudo sobre o Implante e a vida do implantado. Ela escreveu um livro sobre a experiência dela e fez-me personagem em uma das páginas, relatando brevemente minha história e o apoio que ela me deu. O livro “Two Worlds – And I live in both” ainda não foi publicado.
Danette Schaffin havia feito o implante um ano antes e estava em pleno desenvolvimento da audição. Pagou para mim e Ludmila uma viagem de navio gaiola pelos canais de Boca Raton.

Quintão Family – Lupa, Lucrécia, Andréia e Ludmila. Primos que não mediram esforços em me ajudar naqueles dias, me levando a lugares pitorescos da Florida, mantendo o clima de altíssimo astral, dando apoio psicológico, servindo de motoristas e me hospedando eventualmente.
Mila e o Frango-com-Quiabo – Não, o quiabo não sou eu. É o prato à minha frente. O “frango-com-quiabo” é um prato típico mineiro. E a Florida está cheia de mineiros. Taí só pra ilustrar o fato de que estando na Florida, senti-me quase em casa, até com pratos típicos da minha terra. Aqui, almoçávamos no Feijão-com-Arroz, um restaurante típico de cozinha brasileira. Mila era minha motorista-cicerone-professora de música. No carro dela, tirei a carta de motorista Floridiano.

Andréia e os Guris – Heric, filho da Lucrécia, e Kendrwick e Kristopher, filhos do Lupa e Andréia eram os traquinas que ajudaram a encher meus 70 dias na Florida.

TiZeni – Participou como pôde, dividida entre igreja e trabalho. Passou minhas roupas e me deu de presente um CD Player, companheiro inseparável e auxiliar na minha reabilitação auditiva.

Família Dawson – Apoio psicológico no Brasil, Faty, Thiara e Lucas. Torcendo e sofrendo, com saudades e muitas expectativas. Tristes e esperançosos na minha partida, alegres e recompensados ao meu retorno.
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